Rio de Janeiro, 14 jan (Xinhua) -- Eventos climáticos extremos e as mudanças climáticas estão exacerbando a insegurança alimentar entre as comunidades que vivem na Amazônia brasileira e forçando o país a repensar seu sistema de saúde, incorporando o conhecimento tradicional, segundo um estudo divulgado nesta quarta-feira pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).
O Brasil, que abrange 60% da Amazônia, enfrenta secas, inundações e ondas de calor cada vez mais frequentes na região, com impactos diretos nas condições de vida e na saúde das comunidades indígenas, constatou o estudo.
De acordo com a FAPESP, instituição que financiou o estudo, essas pressões exigem repensar o funcionamento do Sistema Único de Saúde (SUS), a rede pública, universal e gratuita de saúde do Brasil, para adaptá-lo a um cenário de mudanças climáticas e maior vulnerabilidade social.
O estudo, publicado no British Medical Journal, foi conduzido por uma equipe multidisciplinar de pesquisadores brasileiros que propõem a incorporação do conhecimento tradicional e das necessidades específicas das comunidades locais na reformulação das políticas de saúde para a Amazônia. Esta reflexão é particularmente relevante no contexto da 30ª Conferência das Partes das Nações Unidas (COP30) sobre Mudanças Climáticas, que o Brasil sediou no final de 2025.
Os autores do estudo sugerem a criação de indicadores sensíveis às características específicas da região amazônica, bem como a valorização de práticas de cuidado adaptadas ao território.
"O setor da saúde chegou atrasado ao debate sobre a emergência climática, e particularmente sobre adaptação, quando deveria estar desempenhando um papel de liderança, visto que os eventos extremos se intensificaram e estão afetando um número crescente de pessoas", afirmou uma das autoras do estudo, Gabriela di Giulio, professora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).
Os pesquisadores argumentam que repensar a saúde na Amazônia envolve o fortalecimento de estratégias que integrem o conhecimento tradicional, científico e político, como a vigilância em saúde baseada na comunidade, bem como o conhecimento indígena e os métodos de aprendizagem.
Eles destacam abordagens híbridas já existentes, como o trabalho de parteiras que combinam práticas ancestrais e médicas em territórios de difícil acesso.
A pesquisa também introduz o conceito de "territórios fluidos" para descrever a importância dos rios como única via de acesso aos serviços de saúde e a vulnerabilidade que isso cria em ocasiões de secas severas.
"Durante secas recentes, comunidades inteiras ficaram isoladas, sem acesso a serviços de saúde, o que exacerbou problemas como doenças transmissíveis, poluição e fome", explicou Leandro Giatti, professor da USP e coautor do estudo.
Em uma perspectiva mais ampla, os autores alertam que a persistência do modelo de desenvolvimento atual e o descumprimento dos acordos climáticos colocam em risco a biodiversidade amazônica, fundamental para o bem-estar das comunidades.

